Consciente do sofrimento causado pelo
consumo inconsequente, eu me comprometo a cultivar a boa saúde física e mental
em mim mesmo, em minha família e na sociedade como um todo ao me alimentar,
beber e consumir de maneira consciente. Praticarei a observação profunda no que
diz respeito ao meu consumo dos Quatro Tipos de Nutrientes, a saber: alimentos,
impressões sensoriais, vontade e consciência. Estou determinado a não beber
álcool, não fazer uso de drogas, praticar jogos de azar ou usar produtos com
conteúdo tóxico, como alguns sites de internet, jogos eletrônicos, programas de
TV, filmes, revistas, livros e a não me envolver em conversas com conteúdo
similar. Retornarei ao momento presente como um modo de estar em contato com os
elementos capazes de renovar, curar e revigorar a mim e àqueles ao meu redor – e
não me deixarei arrastar ao passado pelo arrependimento e pela tristeza nem
permitirei que a ansiedade, o medo e a avidez me empurrem para longe. Eu me
comprometo a não tentar preencher minha solidão, ansiedade ou qualquer outro
sofrimento através do consumismo. Contemplarei tanto o Interser quanto o ato de
consumir de modo que preservem a paz, a alegria e o bem-estar no meu corpo, na
minha consciência, e no corpo e na consciência coletivos da minha família, da
sociedade e do Planeta Terra.
Quando tomamos um banho ou uma chuveirada, podemos olhar para o nosso
corpo e ver que ele foi um presente dos nossos pais e dos pais deles. Ainda que
muitos não queiram ter grande ligação com seus pais - estes podem ter-lhes
causado muito dano -, quando se olha profundamente é impossível não ver certa
identificação com eles. À medida que lavamos cada parte do nosso corpo, podemos
perguntar a nós mesmos: "A quem pertence este corpo? Quem me transmitiu este
corpo? O que foi transmitido?" Meditando desta forma, descobriremos que há três
componentes: o transmissor, aquilo que é transmitido e aquele que recebe a
transmissão. O transmissor são nossos pais. Nós somos a continuação de nossos
pais e de seus ancestrais. O objeto da transmissão é o nosso próprio corpo. E
aquele que recebe a transmissão somos nós.
Se continuarmos a meditar sobre isso, veremos claramente que o
transmissor, o objeto transmitido e o receptor são uma coisa só. Todos os três
estão presentes no nosso corpo. Quando estamos profundamente em contato com o
momento presente, podemos ver que todos os nossos ancestrais e todas as gerações
futuras estão presentes em nós. Vendo isto, saberemos o que fazer e o que não
fazer - para nós mesmos, pelos nossos ancestrais, pelos nossos filhos e pelos
filhos destes.
Quando você olha para seu pai, provavelmente não vê de imediato que
você e seu pai são um só. Você pode estar zangado com ele por muitas razões. Mas
no momento em que você o compreende e ama, você percebe o vazio da transmissão.
Percebe que amar a você mesmo é amar seu pai, e que amar seu pai é amar a você
mesmo. Manter seu corpo e sua consciência saudáveis é fazê-lo por seus
ancestrais, por seus pais e pelas gerações futuras. Você faz isso pela sua
sociedade e por todos, não apenas por você mesmo. A primeira coisa que você deve
ter em mente é que você não está praticando isto como uma entidade separada.
Tudo quanto você ingerir, você o está ingerindo por todos. Todos os seus
ancestrais e todas as gerações futuras estão ingerindo isto com você. Este é o
verdadeiro significado do vazio da transmissão. O quinto treinamento para a
mente alerta deveria ser praticado neste espírito.
Existem pessoas que bebem álcool e ficam embriagadas, que destroem
seus corpos, suas famílias, sua sociedade. Elas deveriam abster-se de beber. Mas
você que tem bebido uma taça de vinho toda semana pelos últimos trinta anos sem
causar nenhum mal a você mesmo, por que deveria parar com isso? Qual é a
utilidade de praticar este treinamento para a mente alerta se a ingestão de
álcool não prejudica a você nem a outras pessoas? Apesar de você não ter se
prejudicado durante os últimos trinta anos por beber apenas uma ou duas taças de
vinho por semana, a verdade é que isto pode ter um efeito sobre seus filhos,
seus netos e sua sociedade. Basta observar profundamente para constatá-lo. Você
não está praticando para você sozinho, mas para todo mundo. Seus filhos podem
ter uma propensão ao alcoolismo e, vendo você beber vinho toda semana, um deles
pode tornar-se um alcoólatra no futuro. Se você abandonar suas duas taças de
vinho, isto significa mostrar a seus filhos, a seus amigos e à sua sociedade que
sua vida não é apenas para você próprio. Sua vida é para seus ancestrais, para
as gerações futuras e também para sua sociedade.
Parar de beber duas taças de vinho por semana é uma prática muito
profunda, mesmo que este costume não tenha trazido nenhum dano a você. Este é o
discernimento de um bodhisattva, que sabe que tudo o que faz é feito para todos
os seus ancestrais e para as gerações futuras. O vazio da transmissão é a base
do quinto treinamento para a mente alerta. O uso de drogas por tantos jovens
também deveria acabar através desse modo de pensar.
Na vida moderna, as pessoas pensam que seus corpos pertencem a elas
mesmas e que podem fazer o que quiserem com ele. "Temos o direito de viver nossa
própria vida." Quando você faz tal declaração, a lei apóia você. Esta é uma das
manifestações do individualismo. Porém, de acordo com o ensinamento do vazio,
seu corpo não é seu. Seu corpo pertence a seus ancestrais, a seus pais e às
gerações futuras. Ele também pertence à sociedade e a todos os outros seres
vivos. Todos eles se uniram para concretizar a presença deste corpo - as
árvores, as nuvens, tudo. Manter seu corpo saudável é expressar gratidão a todo
o cosmos e a todos os seus ancestrais, e é também não trair as gerações futuras.
Praticamos este treinamento para a mente alerta para o cosmos inteiro, para a
sociedade inteira. Se formos saudáveis, todos podem beneficiar-se disso - não
apenas todos na sociedade de homens e mulheres, mas todos na sociedade de
animais, plantas e minerais. Isto é o treinamento para a mente alerta do
bodhisattva. Quando praticamos os cinco treinamentos para a mente alerta já
estamos no caminho de um bodhisattva.
Quando somos capazes de sair da concha de
nosso pequeno eu e ver que estamos inter-relacionados com todos e com tudo,
observamos que cada ato nosso está ligado com a humanidade inteira, com o cosmos
inteiro. Manter-se com saúde é ser gentil com seus ancestrais, com seus pais,
com as gerações futuras e também com a sua sociedade. Saúde não é só a saúde
corporal, mas também a saúde mental. O quinto treinamento para a mente alerta
refere-se à saúde e à cura.
Consciente do sofrimento causado pelo
consumo inconsequente, eu me comprometo a cultivar a boa saúde física e mental
em mim mesmo, em minha família e na sociedade como um todo ao me alimentar,
beber e consumir de maneira consciente. Pelo fato de você não estar fazendo isto
só para você mesmo, o parar de beber uma ou duas taças de vinho por semana é
verdadeiramente um ato de bodhisattva. Você faz isto por todos. Em uma festa,
quando alguém lhe oferece uma taça de vinho, você pode sorrir e recusar: "Não,
obrigado. Eu não bebo álcool. Eu agradeceria se me trouxesse um copo de suco ou
água." Faça isto com gentileza, com um sorriso. É muito ilustrativo. Você dá um
exemplo para muitos amigos, incluindo muitas crianças que estiverem presentes.
Apesar de se poder fazer isto de maneira educada e discreta, é verdadeiramente o
ato de um bodhisattva, dando exemplo com sua própria vida. (...)
O objeto deste treinamento para a mente alerta é o consumo
responsável. Somos o que consumimos. Se olharmos profundamente para os itens que
consumimos todo dia, iremos conhecer muito bem nossa natureza. Temos de comer,
beber, consumir, mas se o fizermos sem a mente alerta, podemos destruir nossos
corpos e a nossa consciência, mostrando ingratidão para com nossos ancestrais,
pais e gerações futuras.
Quando comemos com mente alerta, estamos em estreito contato com o
alimento. O alimento que comemos nos vem da natureza, dos seres vivos e do
cosmos. Tocá-lo com a mente alerta é mostrar nossa gratidão. Comer com mente
alerta pode ser uma grande alegria. Pegamos nossa comida com nosso garfo,
olhamos para ela por um segundo antes de colocá-la na boca e então a mastigamos
cuidadosa e conscientemente, pelo menos cinqüenta vezes. Se praticarmos isto,
estaremos em contato com o cosmos inteiro.
Estar em contato também significa saber se há toxinas no alimento.
Podemos distinguir um alimento saudável de um não saudável, graças à nossa mente
alerta. Antes de comer, os membros de uma família podem praticar a inspiração e
a expiração, olhando para a comida na mesa. Você pode pronunciar o nome de cada
prato: "batatas", "salada" e assim por diante. Chamar alguma coisa pelo nome nos
ajuda a entrar em contato profundo com ela e ver sua verdadeira natureza. Ao
mesmo tempo, a mente alerta nos revela a presença ou ausência de toxinas em cada
prato. As crianças adoram fazer isso, se mostrarmos a elas como fazê-lo. O comer
consciente é uma boa educação. Se você praticar isto por algum tempo, verá que
vai comer mais cuidadosamente, e a sua prática de comer conscientemente será um
exemplo para os outros. É uma arte comer de tal forma que isto contribua para a
mente alerta em sua vida.
Podemos ter uma dieta cuidadosa para o nosso corpo e podemos também
ter uma dieta cuidadosa para nossa consciência, nossa saúde mental. Precisamos
abster-nos de ingerir os tipos de "alimento" intelectual que trazem toxinas para
a nossa consciência. Alguns programas de TV, por exemplo, nos educam e nos
ajudam a levar uma vida mais saudável; devemos reservar algum tempo para
assistir a programas como esses. Mas outros programas nos trazem toxinas;
precisamos abster-nos de assistir a eles. Esta pode ser uma prática para todos
os membros da família.
Sabemos que fumar cigarros não é bom para nossa saúde. Foi um
trabalho árduo conseguir que os fabricantes fossem obrigados a colocar uma
advertência no maço de cigarros: O cigarro pode ser prejudicial à sua saúde.
Esta é uma frase contundente, mas foi necessária, porque os anúncios para
promover o fumo são muito convincentes. Eles dão aos jovens a idéia de que, se
não fumarem, não estão de fato vivendo intensamente. (...)
Às vezes não precisamos comer ou beber tanto como costumamos, mas
isto se tornou uma espécie de vício. Nós nos sentimos muito sozinhos. A solidão
é um dos tormentos da vida moderna. É semelhante ao terceiro e ao quarto
treinamentos para a mente alerta - nós nos sentimos sozinhos, então nos
engajamos numa conversa, ou mesmo numa relação sexual, esperando que o
sentimento de solidão vá embora. Beber e comer também podem ser o resultado da
solidão. Você quer comer ou se empanturrar para esquecer a solidão, mas o que
você come pode trazer toxinas para o seu corpo. Quando você está sozinho, você
abre a geladeira, vê TV, lê revistas ou romances ou pega o telefone e conversa.
Mas o consumo sem consciência sempre piora as coisas.
Um filme pode conter muita violência, ódio e medo. Se passarmos uma
hora assistindo a esse filme, vamos regar as sementes da violência, do ódio e do
medo dentro de nós. Nós fazemos isso e deixamos que nossos filhos o façam
também. Deveríamos fazer uma reunião familiar e discutir uma política
inteligente sobre o assistir à televisão. Talvez devêssemos escrever em nossos
aparelhos de TV o mesmo que está escrito nos maços de cigarros: Assistir à
televisão pode ser prejudicial à sua saúde. Esta é a verdade. Algumas crianças
entraram para gangues e muitas são muito violentas, em parte porque viram muita
violência na televisão. Devemos ter uma política inteligente no que diz respeito
ao uso da televisão em nossa família. (...)
Por sermos solitários, queremos conversar, mas nossas conversas
também podem suscitar muitas toxinas. De tempos em tempos, depois de falar com
alguém, sentimo-nos como que paralisados pelo que acabamos de ouvir. A mente
alerta nos ajudará a eliminar o tipo de conversa que nos traz mais
toxinas.
Os psicoterapeutas são aqueles que escutam profundamente os
sofrimentos de seus clientes. Se eles não sabem como fazer para neutralizar e
transformar a dor e o pesar neles mesmos, não serão capazes de se manter
dispostos e saudáveis por longo tempo. O exercício que proponho tem três pontos:
Primeiro, olhe profundamente para seu corpo e para sua consciência e identifique
os tipos de toxina que já estão em você. Cada um de nós tem de ser seu próprio
médico, não apenas para o corpo, mas também para a mente. Depois de
identificarmos as toxinas, podemos tentar expeli-las. Um modo de fazê-lo é beber
muita água. Outro é a massagem: fazer o sangue chegar aonde estão as toxinas, a
fim de que possa levá-las embora. Um terceiro método é inspirar profundamente ar
fresco e puro. Isto leva mais oxigênio ao sangue e ajuda a expelir as toxinas de
nosso corpo. Existem mecanismos no nosso corpo que tentam neutralizar e expelir
essas substâncias, mas nosso corpo pode estar muito fraco para fazer o trabalho
sozinho.
Enquanto fazemos estas coisas devemos parar de ingerir mais toxinas.
Ao mesmo tempo que realizamos as práticas acima, examinamos nossa consciência
para ver que tipos de toxinas já estão lá. Temos muita raiva, desespero, medo,
ódio, ânsias e ciúmes - todas estas coisas o Buda as descreveu como venenos. O
Buda falou dos três venenos básicos, designando-os como raiva, ódio e ilusão. Há
muitos outros além destes, e temos de reconhecer a presença deles em nós. Nossa
felicidade depende de nossa capacidade de transformá-los. Não praticamos os
exercícios e por isso fomos levados por nosso estilo de vida irresponsável. A
qualidade da nossa vida depende muito da quantidade de paz e alegria que pode
ser encontrada em nosso corpo e em nossa consciência. Se houver muitos venenos
em nosso corpo e na nossa consciência, a paz e a alegria em nós não serão fortes
o suficiente para nos fazer felizes. Portanto, o primeiro passo é identificar e
reconhecer os venenos que já estão em nós.
O segundo passo da prática é estar plenamente conscientes do que
nosso corpo e nossa consciência estão ingerindo. Que espécies de toxinas estou
colocando em meu corpo hoje? A que filmes estou assistindo hoje? Que livro estou
lendo? Que revista estou olhando? Que tipos de conversa estou tendo? Tente
reconhecer as toxinas.
(Do livro “Os cinco
treinamentos para a mente alerta” – Thich Nhat Hanh)
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